- Foi assim: segurei a arma com a mão direita, apoiei com a esquerda para ter mais estabilidade, franzi a testa até a terceira ruga, fechei o olho esquerdo, levantei a mira da pistola até a altura do meu olho direito, esperei uma gota de suor rolar sobre minha têmpora, prendi a respiração, mentalmente lembrei da forma como partiu jogando seu cabelo para o lado e me olhando com desprezo por cima do ombro, e, com o dedo indicador da mão direita puxei o gatilho. Com o mesmo leve e sutil movimento do dedo indicador que eu costumo usar para secar uma lágrima entre meus olhos e óculos, acabei com a vida dela.
- Confesso, meu jovem, que nunca em minha carreira vi disparo mais certeiro. O legista confirmou: simetricamente perfeito entre os olhos dela, e entre o nariz e as sobrancelhas.
- É porque... ela é toda simetricamente perfeita, Sr. Delegado, como os antigos gregos já previram ser o ideal da beleza. Além do mais, eu adorava a cor dos seus olhos. Não poderia haver falha ali, e, felizmente, acertei. Os olhos dela continuam lindos, e não há nada fora do lugar no rosto dela, a beleza permacerá intacta, como planejado. Agora ela está morta.
- De qualquer forma, parabéns pelo tiro.
- Obrigado.
- Cadeira ou injeção?
- Cadeira. Sempre tive medo de agulhas.
Rodrigo Lopes
08/11/11
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